top of page

Pets e saúde mental: uma relação que vai muito além da companhia

Por Juliana Sato


A presença de um animal na vida de uma pessoa costuma ser descrita de maneira simplificada como algo que “faz bem”, mas essa explicação rápida não dá conta da complexidade psicológica envolvida nesse vínculo, que não se resume a carinho, distração ou sensação agradável, mas mobiliza sistemas emocionais profundos relacionados à regulação do estresse, à previsibilidade relacional, ao senso de responsabilidade e à experiência de pertencimento. Quando alguém convive com um animal de companhia, estabelece-se uma relação que atua diretamente na forma como o corpo e a mente organizam segurança, rotina e significado, o que ajuda a compreender por que tantas pessoas relatam sentir-se mais estáveis emocionalmente na presença de seus pets, mesmo em contextos de sofrimento intenso.


Do ponto de vista psicobiológico, a interação com um animal familiar pode favorecer estados fisiológicos associados à redução da hipervigilância e da ativação constante típica de situações de ansiedade crônica, uma vez que o contato repetido com uma presença percebida como segura contribui para modular respostas de estresse e criar experiências de previsibilidade que o cérebro interpreta como sinais de proteção. Diferentemente das relações humanas, que são atravessadas por expectativas sociais, conflitos simbólicos e exigências de desempenho emocional, a relação com o animal tende a oferecer uma forma de convivência marcada por constância e ausência de julgamento, o que permite que muitas pessoas encontrem ali uma experiência reguladora que antecede até mesmo a elaboração consciente do que estão sentindo.


Outro aspecto frequentemente negligenciado é o impacto estruturante do cuidado cotidiano, pois alimentar, levar para passear, observar mudanças de comportamento, organizar o ambiente e acompanhar necessidades de saúde não são apenas tarefas práticas, mas elementos que constroem ritmo e continuidade em vidas que, muitas vezes, se encontram desorganizadas por perdas, sobrecarga ou adoecimento psíquico. Em momentos de depressão, luto ou ansiedade, nos quais a motivação interna se fragiliza, o compromisso com o animal funciona como um organizador externo capaz de sustentar pequenas ações diárias que mantêm a pessoa em movimento, criando uma forma de engajamento com a vida que não depende exclusivamente de energia emocional disponível.


É importante destacar que reconhecer os efeitos positivos dessa convivência não significa idealizar o vínculo ou tratá-lo como solução para o sofrimento humano, já que a mesma relação que oferece suporte também traz preocupações, responsabilidade contínua, decisões difíceis diante do adoecimento do animal e, inevitavelmente, o enfrentamento de sua finitude. A intensidade do sofrimento quando um pet adoece ou morre não decorre de exagero afetivo, mas da própria natureza do apego construído ao longo da convivência, que envolve investimento emocional, construção de memória compartilhada e integração do animal à vida cotidiana como figura significativa. Quando esse aspecto é desconsiderado socialmente, cria-se um paradoxo em que o amor pelo animal é aceito, mas o impacto emocional da perda é minimizado, dificultando processos legítimos de elaboração do luto.


Transformações sociais contemporâneas ajudam a compreender por que os animais passaram a ocupar lugar ainda mais central nas dinâmicas afetivas, já que redes familiares mais reduzidas, maior número de pessoas vivendo sozinhas, jornadas de trabalho extensas e relações sociais marcadas por transitoriedade ampliaram a busca por experiências de vínculo estável. Nesse contexto, o animal não substitui relações humanas, mas frequentemente representa uma presença contínua em um cotidiano fragmentado, oferecendo previsibilidade relacional em um cenário cultural caracterizado por aceleração, instabilidade e exigências constantes de adaptação.

Para profissionais de saúde, compreender essa dimensão é fundamental, pois o vínculo com o animal pode funcionar como elemento de suporte emocional, referência de sentido existencial e, ao mesmo tempo, fonte de sofrimento quando atravessado por doença ou perda, sendo necessário incluí-lo na escuta clínica, nas orientações de cuidado e nas estratégias de acompanhamento, sem reduzir sua importância a um detalhe periférico da vida do paciente. Ignorar essa relação significa deixar de considerar uma parte relevante da experiência emocional contemporânea, especialmente em contextos nos quais os animais participam ativamente da organização afetiva das pessoas.


Falar de pets e saúde mental, portanto, não é falar de benefícios genéricos ou de companhia agradável, mas de relações que influenciam diretamente modos de viver, cuidar, sofrer e se reorganizar diante das mudanças inevitáveis da existência, mostrando que o impacto psicológico dessa convivência está menos no animal em si e mais na qualidade do vínculo que se constrói, se mantém e, em algum momento, também precisa ser elaborado quando chega ao fim.

Comentários


ID - tv+pet (5).png

Notícias e Curiosidades

3.png

Reality e Marketing

5.png
Eventos Pet

(Em Breve!)

images.png

Instituto Caramelo

bottom of page