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Quando a causa animal vira palanque, todo mundo perde

Quando acontece um caso como o do cão Orelha, a primeira coisa que eu observo não é só a crueldade em si. É tudo o que vem depois. Todo mundo corre pra comentar, pra aparecer, pra se posicionar, pra assinar embaixo. E é aqui que eu quero ser muito claro: a causa animal é apartidária. Não é bandeira de esquerda, não é troféu de direita. É um pacto mínimo de civilidade.


O caso ganhou repercussão porque foi absurdo, porque rompe qualquer noção básica de limite, e porque hoje a sociedade já não aceita mais esse tipo de violência em silêncio. Há investigações em andamento, perícias, coleta de provas digitais e acompanhamento do Ministério Público por envolver menores. Até aí, o que se espera de um Estado funcionando. O problema começa quando, junto da investigação, surge a disputa. Quem fala primeiro. Quem capitaliza. Quem puxa o assunto para a própria pauta.


É natural que a política entre no debate. Quem tem mandato tem obrigação de se manifestar e propor soluções. O risco é quando a causa vira palanque. Quando um animal morto vira argumento para guerra cultural. Quando, em vez de discutir prevenção, estrutura e política pública, a conversa descamba para lado contra lado, torcida organizada, vaidade e narrativa.


No meio disso tudo, ver as manifestações no domingo trouxe um sentimento curioso e até inesperado. Pessoas de posições políticas completamente diferentes ocupando juntas espaços que historicamente simbolizam divisão. Lugares como a Avenida Paulista, que costumam ser palco de manifestações de lados opostos, viraram pontos comuns de indignação e pedido de justiça. Aquilo não era sobre ideologia. Era sobre limite. Sobre bom senso. Sobre um consenso mínimo de que certas coisas não deveriam precisar ser explicadas. Foi um lembrete importante de que, apesar do barulho e das bolhas, o bom senso ainda aparece quando o assunto é básico demais para virar disputa.


E é justamente aí que mora o ponto central. A causa animal não pode ser sequestrada por partido, discurso ou agenda paralela. Ela precisa ser prática. Precisa funcionar no mundo real. Porque quando a gente transforma esse tipo de caso em briga política, a consequência é simples: nada estrutural muda.


Se a intenção for realmente defender os animais, o caminho é conhecido e não depende de ideologia. É cobrança institucional séria, investigação bem feita, responsabilização dentro do que a lei permite, estrutura de fiscalização, delegacias capacitadas, orçamento, educação e prevenção. É parar de agir só quando o caso viraliza e começar a tratar crueldade como política pública contínua.


No fim, pouco importa quem tenta ganhar a narrativa. O que importa é evitar o próximo caso. Porque se tudo isso virar só disputa de lado, daqui a pouco aparece outro Orelha, e a gente repete o ciclo de choque, indignação, post, protesto e esquecimento.


A causa animal é apartidária porque ela não fala sobre identidade política. Ela fala sobre limite, responsabilidade e o tipo de sociedade que a gente aceita construir. E esse deveria ser o ponto comum mais básico de todos.

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